…vida ideal…

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Na medida em que o tempo passa, a vida nos ensina, mas nem sempre na perspectiva romântica como pretendemos que seja este ensino. Chamo de perspectiva romântica a ideia de que o passar do tempo trará crescimento e progresso, ampliação de conhecimento e recursos e até amadurecimento para os relacionamentos que quase sempre comparados a bons vinhos de guarda, espera-se serem melhores com o passar do tempo e o avançar dos anos. Percebo que em alguns casos a vida pode até responder desta forma, a romântica. Há pessoas que enriquecem ou pelo menos atingem uma confortável condição financeira a ponto desse tema não ser uma preocupação no seu dia à dia. Há aqueles que crescem pessoalmente, culturalmente, profissionalmente e alguns que até se tornam celebridades, uns apenas na sua própria cabeça, outros a partir do “feed back” ao que semearam ou ao “sucesso” que construíram. Há aqueles que com o passar dos anos viram seus relacionamentos metamorfosearem-se para melhor, e, chegando à velhice, desfrutam de relacionamentos familiares saudáveis, tranquilos, com a sensação de dever cumprido, ou a boa sensação de quem atingiu o que sempre fora proposto como ideal tanto para a desafiadora e trabalhosa relação matrimonial como para a enigmática e não menos desafiadora e trabalhosa relação paterno-materno-filial.

Enfim, como alguém que vive a algum tempo, percebo que os resultados mencionados são exceções. A maioria das pessoas não alcança este estado de idealidade imaginada e sonhada. A maioria das pessoas que conheço e com quem convivo, em alguma área das mencionadas acima, em relação a sucesso ou idealidade falharam. Muitos casamentos não deram certo, muitas famílias ruíram, muitos foram à falência ou vivem com recursos tão escassos que têm o suprimento de suas necessidades básicas comprometido.

Estas supostas falhas, ou supostos fracassos são questionados ou explicados por alguns grupos de formas diferentes, mas com explicações nada satisfatórias, justamente por não serem realistas e por ignorarem contextos individuais. A minoria que atingiu o “ideal” e os teóricos de plantão com seus manuais de “ideais” em mãos, procuram encontrar e apontar algum erro cometido por quem fracassou como motivo da não conquista da idealidade. Impugnam sobre o “fracassado” também o carma de incompetente. Agem como se isso resolvesse o problema, detectar o erro ou o “culpado” e esclarecer onde falhou. Essas avaliações são parciais, incompletas, incongruentes e consequentemente passivas de rejeição, pois não consideram a individualidade do suposto “fracassado” e tudo que a envolve, sua educação, personalidade, caráter, formação, experiência de vida. Muitas vezes não considerando o “entorno” e sua influencias através de oportunidades e “portas fechadas”, mudanças, conflitos pessoais, acidentes, incidentes, as percepções  diante dos mais diversos momentos vividos ou sobre a própria vida, enfim, uma gama de fatores complexos que não deveriam ser omitidos em uma avaliação séria, que não pode ser simplista e nem refém de cartilhas de “ideais”, que na maioria das vezes são utópicas.

Não posso deixar de mencionar ainda a religião como proponente de um “ideal” e juiz do fracasso diante deste ideal. Como religioso, que de certa forma sou, percebo que a religião tem a capacidade de elevar a patamares estratosféricos as expectativas à respeito da idealidade. E como estas expectativas não se cumprem conforme o esperado, ela tem séria dificuldade de lidar com o “suposto” e praticamente inevitável fracasso. A religião ao tentar lidar com o fracasso constatado pela proposta de idealidade dos seus manuais, e, de suas crenças adquiridas por tradição, transita pelos ardilosos e não realistas caminhos da negação, da sublimação, da transferência de responsabilidades. Classifico-os como ardilosos e não realistas porque desembocam em um único ponto, uma mesma linha de chegada, a hipocrisia, seja ela voluntária ou involuntária, seja ela consciente ou inconsciente, não importa, mas o fim destes caminhos tem um só nome e uma condição de vida, a hipocrisia. Sem muito esforço é possível observar ao redor e perceber que existe muita gente simulando casamento feliz, vida familiar feliz, vida profissional feliz, sem serem. A religião em geral não é misericordiosa e na maioria delas não há espaço para o “fracasso”. Como ela e seus manuais precisam ser preservados o “fracassado” será sempre responsabilizado. O “fracassado” por sua vez não querendo ser reconhecido como tal e não disposto a enfrentar os tribunais da religião e seus julgamentos rasos, preconceituosos e essencialmente condenatórios e sempre destrutivos, fingem, aparentam o ideal, mascaram a realidade e se tornam reféns da mentira e da falsidade. O impressionante nisso tudo é que a aceitação da religião pela aparência parece resolver a questão e ambos caminham como se a mentira fosse verdade. Um lado diz que o sucesso do outro depende do cumprimento das regras que ele propõe e só o aceita se possuir determinado formato, o outro lado não consegue adquirir o formato proposto e finge usando maquiagem adequada, vocabulário adequado, o bom e velho “politicamente correto”. O lado proponente, aceita a aparência, o uso da máscara o receptor da proposta se acomoda com a “aceitação” e fica tudo bem. Nada muda.

A grande questão é que grande parte ou a maior parte daquilo que reza nas cartilhas humanas, religiosas ou não, como ideal de vida ou ideal para vida, todo sucesso sugerido é de certa forma utópico. A situação se agrava pois essa utopia gera um fracasso desnecessário e produz um sofrimento tão profundo que abarca os limiares da alma e do espírito, fazendo com que o suposto “fracassado” adoeça em todas as esferas da sua existência. Em um mundo competitivo como o nosso ninguém quer perder, ninguém quer se considerado “fracassado”, mas reféns de cartilhas elaboradas por acadêmicos brilhantes, religiosos ilustres, ou por um consciente coletivo consumista, autossuficiente, narcisista e egoísta, que nega a realidade, até o que não é fracasso e que seria simplesmente uma experiência normal de alguém que por estar vivo passaria é qualificado como fracasso e derrota.

Viver é errar muito mais do que acertar, mesmo buscando com todas as forças o acerto. Não há quem nasça sabendo. Não há quem chegue à perfeição por mais longa que seja a sua vida e por mais determinado que seja a pessoa. As propostas de sucesso não podem ignorar estes fatos. Não se produz vida de dentro da academia através de elucubrações teóricas, idealistas, mas não realistas. Não se constrói sucesso distante do chão, do suor, da perda, da dor, do esgotamento, do medo, da derrota, da limitação, da superação, da coragem, do enfrentamento, da pratica, enfim, da realidade. O sucesso não tem a ver com conquistas e acumulo de recursos e bens. A vida ideal não é a perfeita, pois esta não existe. A vida real, ideal é aquela que tem consciência de que o medo vencido hoje pode sim me engolir amanhã. É aquela onde o suor e a dor de hoje me permite colher o fruto amanhã. É aquela que sabe que tanto o sorriso de hoje pode se transformar em lágrimas amanhã, como as lágrimas de hoje podem ser a base para construir o sorriso de amanhã. O sucesso está na capacidade de superação, na perseverança, na resiliência, na capacidade de envergar-se até o chão e às vezes com muitas dores voltar a posição original e sorrir, e cantar, e dançar. A vida ideal é sim a do aprendizado, mas do aprendizado pé no chão, que a aceita complexa e não imputa respostas simplistas as suas difíceis questões. A vida ideal é flexível não é refém de cartilhas ou métodos. A vida ideal está livre de máscaras, pois é o que é e não precisa fingir ser o que não é. A vida ideal sorri, dança, celebra, sente dor e chora, se prostra, fica esgotada, desanima, se levanta e sorri novamente, volta a cantar e a dançar. A vida ideal não usa maquiagem. A vida ideal faz ao vivo, não por ser perfeita, mas por não ter medo de errar e por não precisar “manter as aparências”.

Para lidar bem com a vida real, cabem algumas dicas:

  • o conselho do compositor paulistano, Walter Franco sugerido na sua canção “Serra do Luar”: “Tudo é uma questão de manter a mente quieta a espinha ereta e o coração tranquilo”.
  • A experiência do Salmista no Salmo 30;11:  “Mudaste o meu pranto em dança, a minha veste de lamento em veste de alegria”.
  • A palavra do sábio: “Agora que já se ouviu tudo, aqui está a conclusão: Tema a Deus e guarde os seus mandamentos, pois isso é o essencial para o homem”.
  • A palavra de Jesus Cristo: “Se vocês obedecerem aos meus mandamentos, permanecerão no meu amor, assim como tenho obedecido aos mandamentos de meu Pai e em seu amor permaneço. Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa”.

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~ por celsommachado em 14/08/2015.

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