UM SERMÃO

INTIMIDADE COM DEUS – UMA AMIZADE

Existe algo inexplicável na relação do ser humano com Deus. Inexplicável para as limitações humanas em sua tentativa de compreender como o divino, perfeito, justo e puro, insiste em um relacionamento de intimidade com suas criaturas que por ação do pecado são imperfeitas, injustas e impuras.
Podemos explicar este impasse dizendo que é amor. Mas como tudo que procuramos compreender e entender na vida tem como ponto de partida nós mesmos e nossas experiências, mesmo sabendo desse amor, temos dificuldades para entendê-lo, pois humanamente não é possível amar assim. Mas o fato é que Deus insiste nessa relação de amizade e deseja intimidade com suas criaturas.
Podemos perceber através de uma simples leitura das Escrituras a ação de Deus na construção desse relacionamento.
Na narrativa de Gênesis havia uma convivência marcada por uma conversa e passeio pelo jardim diariamente. Uma convivência onde a nudez não era um problema. Havia relacionamento, amizade, intimidade.
Essa primeira porção das Escrituras nos revela que o Deus da Bíblia nem sempre é o Deus da religião.
O Deus da religião é apresentado em linhas gerais de duas formas: Primeiramente como um tipo de fiscal-carrasco, que está sempre na espreita vigiando as pessoas com “sangue nos olhos”, doidinho para que as pessoas cometam erros para que ele possa puni-las, execrá-las, expô-las enfim destruí-las. E em segundo lugar, a religião o apresenta como o bom velhinho sentado em uma cadeira de balanço celestial que deu corda no mundo e deixou as coisas acontecerem. Onde cada faz o que quer e ninguém presta conta de nada a ninguém, movidos pela expectativa de que “no final vai dar tudo certo”.
Na verdade o Deus da religião vive essa coisa dos 8 ou 80. Mas o Deus da Bíblia é diferente, é relacional, equilibrado, sabe o que está acontecendo e aonde quer chegar. Investe desde sempre na relação de amizade intima com suas criaturas. Postura essa que não o esvazia em nada da sua soberania, da sua justiça, do seu senhorio. Pois pelo fato do soberano, do Senhor, do justo ser formado essencialmente de amor é possível que ele seja amigo daqueles que estão sob a sua soberania, seus súditos, amigos daqueles que estão sob seu senhorio, seus servos e amigos dos injustos confrontados pela sua justiça, pois ele os justifica.
Isso fica evidente na relação dele com Moisés. “O Senhor falava com Moisés face a face, como quem fala com seu amigo”. Êxodo 33:11
Na relação de Deus com Abraão. “Não és tu o nosso Deus, que expulsaste os habitantes desta terra perante Israel, teu povo, e a deste para sempre aos descendentes de teu amigo Abraão?” 2 Cron.20:7. “Cumpriu-se assim a Escritura que diz: “Abraão creu em Deus, e isso lhe foi creditado como justiça”, e ele foi chamado amigo de Deus”. Tiago 2:23
Na relação de Jesus Cristo o Deus encarnado com Lázaro. “Depois de dizer isso, prosseguiu dizendo-lhes: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou até lá para acordá-lo”. João 11:11

COMO É A AMIZADE PROPOSTA POR DEUS?

1. É UMA INICIATIVA DE DEUS

“O meu mandamento é este: amem-se uns aos outros como eu os amei. Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos. Vocês serão meus amigos, se fizerem o que eu lhes ordeno. Já não os chamo servos, porque o servo não sabe o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido. Não foram vocês que me escolheram, mas eu os escolhi…”. João 15:13-16
Apesar de qualquer relacionamento ser uma via de duas mãos o relacionamento com Deus começa com a iniciativa dele. Isso revela o quanto a vontade humana é fraca e muitas vezes incapaz de fazer as escolhas certas. O ser humano precisa de Deus, dessa amizade, para sentir-se pleno, completo, mas não consegue tomar a iniciativa para estabelecer este relacionamento. Sabendo disso, e movido por um amor inexplicável, Deus toma a iniciativa por esta amizade.
Esse texto sinaliza a intenção de Deus em manter um relacionamento com seus seguidores que transcenda a formalidade de uma relação mestre/discípulo e seja uma relação pura e simples de amizade.
A relação do discípulo com seu mestre pode ser marcada pela formalidade. Ações politicamente corretas, palavras devidamente colocadas, ou seja, uma relação formal. Uma amizade verdadeira traz uma pitada informalidade, que nos deixa à vontade para ser quem somos.
Essa é a mensagem passada por Deus quando nos chama de amigos. Ele quer que fiquemos à vontade, que sejamos nós mesmos, que não fiquemos criando “tipos” e “estilos” baseados em nossos achômetros numa tentativa de agradá-lo. O que se espera de um amigo é que ele seja verdadeiramente ele mesmo.
Como qualquer relacionamento, por mais que a iniciativa seja de Deus, é necessária uma contrapartida. Como se responde a uma boa amizade? Como se cuida de uma boa amizade? Como se caminha em uma amizade na direção da intimidade? Com verdade, lealdade, transparência, gentileza, fidelidade, carinho, investimento de tempo e obediência. João 15:14: “Serão verdadeiramente meus amigos se fizerem o que vos mando”.

2. SEM ACEPÇÃO DE PESSOAS

“Pois veio João, que jejua e não bebe vinho, e dizem: ‘Ele tem demônio’. Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: ‘Aí está um comilão e beberrão, amigo de publicanos e “pecadores”. Mas a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham”. Mateus 11:19
Eu acho esse texto tremendo, pois põe em xeque nossa religiosidade. Temos a tendência de ler a Bíblia enxergando apenas o que achamos certo. Não esperamos o texto nos dizer, já está na lente com a qual lemos o texto o que queremos enxergar. E isso respaldado pelo que nós achamos que seja certo ou errado.
Ousamos dizer que o vinho que Jesus tomava não tinha álcool, então não era vinho era suco de uva. Falamos que Jesus foi tentado em todas as coisas, mas limitamos esse “todas”. Já vi gente dizer que na área sexual ele não foi tentado. E por aí vai.
O texto deixa claro que o critério de Jesus para fazer suas amizades é bem diferente do nosso. E relativiza o ditado popular: “diga-me com quem andas que te direi quem és”. Mas deve ficar claro que ele andou com bêbados sem se tornar um deles. Andou com cobradores de impostos injustos e ladrões, sem se tornar uma deles.
Ele andava com os “chamados pecadores” e chamados “beberrões”, não pela busca do suposto prazer que essas pessoas buscavam no que praticavam, mas andava e se aproximava por causa delas, das pessoas, para proclamar o evangelho do Reino a elas. O critério de Jesus, a sua busca pelas amizades tinha ver com a sua missão. A existência, a vida de Jesus nunca foi dissociada da sua missão. Sua missão era salvar? Ele andava com os pecadores.
Jesus não se colocou ao lado dos detentores do controle da religião, pois o Deus que eles “vendiam” era muito diferente do verdadeiro. Ele não se colocou do lado dos detentores do poder político, pois eles haviam, por seu egoísmo narcisista, se tornado opressores do simples. Isso não significa que se estes decidirem romper com estas estruturas antirreino e antivida, que negam a Deus, não possam também se tornar amigos de Deus. Sim podem.
Mas o fato é que Deus abre a possibilidade de uma boa e intima amizade com todos. O mérito no tornar-me amigo de Deus não é nosso, mas dele. O que eu preciso fazer é investir nessa amizade, nessa intimidade.

3. EXIGE EXCLUSIVIDADE

“Adúlteros, vocês não sabem que a amizade com o mundo é inimizade com Deus? Quem quer ser amigo do mundo faz-se inimigo de Deus”. Tiago 4:4
“Ou vocês acham que é sem razão que a Escritura diz que o Espírito que ele fez habitar em nós tem fortes ciúmes?” Tiago 4:5
A infidelidade em qualquer relacionamento é destrutiva.
Uma característica da amizade proposta por Deus ao ser humano é a exclusividade.
Uma amizade exclusivista no nosso dia a dia seria definida como doentia. Uma pessoa que não permite que seu amigo ou amiga se relacione com outras pessoas e se tornem também seus amigos seria considerada problemática e doente. A exceção está em tentar evitar que alguém a quem se ama se enverede em relacionamentos sabidamente destrutivos.
Mas na relação com Deus o diferencial está na questão da salvação. A amizade proibida aos amigos de Deus é a amizade com o sistema que rege o nosso tempo com seus valores antirreino a quem as Escrituras chamam de mundo.
Tendo em mente que amizade tem a ver com intimidade, podemos dizer uma amizade verdadeira e consequentemente intima deixa marcas. Não há possibilidade de se ser íntimo de alguém sem marcar e ser marcado. Por isso a postura exclusivista de Deus, que sabe que a amizade com o sistema vigente no mundo deixará marcas sofridas e negativas nos seus amigos.
A postura exclusivista de Deus em relação aos seus amigos pode ser entendida como uma proteção amorosa. Um cuidado para que a felicidade verdadeira dos seus amigos, proporcionada por ele mesmo através da sua amizade, não sejam inibidas ou até mesmo roubadas por ilusões e falsos prazeres sugeridos pelo mundo.
É nesse sentido que a postura exclusivista não se apresenta como domínio e controle, mas como um ato de amor.

4. INTIMIDADE

“Já não os chamo servos, porque o servo NÃO SABE o que o seu senhor faz. Em vez disso, eu os tenho chamado amigos, porque tudo o que ouvi de meu Pai eu lhes tornei conhecido”. “AMIGOS SABEM” João 15:15
Intimidade não se compra nem se negocia, se conquista e leva tempo. A intimidade é construída. Problemas emocionais, traumas, muitas vezes geram medos que nos impedem de desfrutar as benesses da intimidade, nos nossos relacionamentos. Mas relacionamento sem intimidade é superficial. A proposta de Deus é de intimidade sempre.
Jesus bate de frente com os religiosos da sua época porque eram pessoas que procuravam um relacionamento de amizade com Deus, mas de forma muito superficial. E o Deus da intimidade não suporta a superficialidade. Ele não tem problema de te ver com cara de “acabei de acordar”, de roupas íntimas, ou mesmo nu. Ele não tem problema com o que a intimidade é capaz de revelar a seu respeito, nós temos, ele não.
Ele busca a intimidade porque na intimidade há verdade, transparência, honestidade, não há maquiagem para tentar corrigir o que não gostamos ou aquilo com que não conseguimos lidar e tentamos esconder.
Neste sentido a intimidade com Deus “purifica” a intimidade em todas as nossas relações, pois nos ensina a sermos verdadeiros e honestos.
A intimidade com Deus para se desfrutada, “saboreada”, necessita de investimento. Apesar de envolver oração e várias outras disciplinas espirituais envolve antes de qualquer coisa uma disposição de coração singular. É necessário um coração que se autorrenuncia, que abre mão de si e se entrega sem reservas este relacionamento.
É por isso que Abraão que mentiu sobre Sara ser sua esposa por covardia pode ser amigo de Deus. É por isso que o nervosinho e irritadinho Moisés podia conversar com Deus como um amigo. É por isso que um Davi assassino, adúltero, péssimo pai, pode se tornar amigo de Deus.
A diferença não está na quantidade de horas de oração e nem na intensidade da mesma. Não está relacionada a frequência a rituais religiosos sejam de que natureza forem. Nem de auto sacrifício, mas a diferença está no coração disponível para Deus. Coração disposto a dizer não para si e sim para Deus.

CONCLUSÃO
Aí está uma amizade que vale a pena! Você é amigo de Deus?

Anúncios

~ por celsommachado em 13/08/2013.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: