UMA IGREJA RELEVANTE PARA O SEU TEMPO

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Muito tem se falado sobre a perda de relevância da igreja para seu tempo. Tanto há verdade nesta afirmação que vemos o crescimento assustador de uma nova tribo, “os desigrejados”. É claro que neste contingente de pessoas existem aqueles que foram feridos pela religiosidade intolerante da igreja; aqueles que sofreram preconceitos foram marginalizados por caprichos de líderes egocêntricos, entre tantas possibilidades. Mas existem também aqueles que seguindo o curso dos nossos dias, não querem compromisso, responsabilidade, envolvimento com qualquer coisa que possa “dar trabalho”. E consequentemente não estão dispostos a morrer, seguindo a orientação do chamado ao discipulado, de tomar a cruz.

Mas ainda assim é real a dificuldade da igreja em dialogar com o seu tempo. Nas últimas décadas muita coisa mudou, e muito rápido. Mudanças que a igreja tem dificuldade de acompanhar. Nós, pais cinquentões sentimos isto na pele em relação aos nossos filhos adolescentes e jovens. Essa dificuldade reside em vários fatores, como por exemplo: ainda nos reunimos em templos que comunicam muito mais “religiosidade” do que “cristianismo”. A dificuldade passa também pela linguagem, se agrava com a liturgia em alguns casos, que ainda mantém elementos medievais que não dizem nada ao nosso hoje e perde-se a noção completamente nas tentativas de comunicar o evangelho e por aí vai.

A igreja mostra também a dificuldade de enxergar as pessoas sem o impedimento de suas fraquezas falhas e limitações. As lentes religiosas que usamos somadas a uma classificação quase farisaica de pecados excluem pessoas, impedindo-as de experimentarem a graça de Deus que nós mesmos dizemos oferecer. Dizemos às pessoas que elas devem vir a Cristo como estão, pois ele as aceita assim, mas na maioria vezes a “igreja” não aceita.

Neste contexto de certa forma desolador é possível constatar também que esforços têm sido feitos na busca de um dialogo da igreja com o seu tempo, tentando encontrar o caminho da relevância. Mas na tentativa de dialogar alguns grupos tem negociado a essência. E isto é tão negativo quanto a religiosidade castradora que exclui e põe à margem gente amada por Jesus Cristo. Nestas tentativas, Cristo deixa de ser o centro e dá lugar ao homem. As Escrituras são esvaziadas de sentido a ponto de serem consideradas apenas um livro, um pouco confuso, totalmente sob suspeita, de baixa credibilidade, que pode até contribuir com alguns princípios, que na maioria das vezes sucumbem diante de articulações filosóficas tendenciosas. Isso nos deixa um pouco perdidos em relação a ser relevante para o nosso tempo.

Tendo em mente a ideia de ser uma igreja relevante, vamos conversar um pouco sobre alguns fundamentos que não podem ser negociados na busca e manutenção da relevância para o nosso tempo. Fundamentos que na verdade, se mantidos produzirão o efeito que esperamos no ambiente onde estamos inseridos.

UMA IGREJA RELEVANTE:

1.   FUNDAMENTA-SE EM RELACIONAMENTOS DE AMOR

A igreja é Cristã, porque é de Cristo e por isso deve evidenciar marcas daquele que é seu idealizador, sua cabeça, sua razão de ser. A marca mais visível e palpável em Cristo foi o amor. Isso ficava evidente nos relacionamentos e não em discursos ou argumentações filosóficas e teológicas. Ele chegava perto o suficiente para curar mendigos mal cheirosos e os acolhia. Ele chegava perto e conversava com mulheres de moral duvidosa, vitimas de preconceitos e lhes atribuía valor. Ele se importava com a real necessidade das pessoas a sua volta e multiplicava pães para matar a fome delas. Ele convivia com o cara que iria traí-lo, sem tratá-lo com indiferença ou hostilidade. Ele convivia com discípulos muitas vezes dissimulados, infantis, imaturos, impulsivos sem desprezá-los. Ele demonstrou na prática do que o amor é capaz. O amor foca a pessoa até o fim. “…tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”. João 13:1

Vivemos em tempos de superficialidade. Relacionamentos se tornaram superficiais e descartáveis. Mas em se tratando de relacionamento no ponto de vista de Cristo, a ideia é que eu te amo não porque você me faz bem, me deixa confortável, ou vai me render algum benefício, mas eu te amo porque você é um ser humano como eu; eu te amo porque Cristo faria assim; porque é mandamento dele. Os relacionamentos de amor propostos por Cristo não tem a ver com gosto pessoal e não podem ser tratados com a leviandade da superficialidade, pois se assim não for, não serão relacionamentos cristãos.

O mundo onde vivemos com todas as suas características individualistas é um mundo carente de amor sincero, profundo e não superficial. Amor que praticado pode até não produzir o eco desejado, a reciprocidade desejada, mas amor é assim, não espera, dá. Amor cristão é assim.

2.   NÃO NEGOCIA O VALOR DAS ESCRITURAS

A igreja cristã ao longo de sua história tem sido este lugar de polarizações, 8 ou 80. Quantas quebras, feridas abertas aconteceram por conta disso.

Em relação às Escrituras não é diferente. Há aqueles que idolatram as Escrituras, morrem por elas, defendem até a sujeirinha da impressão do livro que tem às mãos como algo inspirado. E passam a ter problemas porque acabam se deparando com muitas coisas que não conseguem lidar, aplicar ao cotidiano e aí tendem à espiritualização, apelando para a culpa ou para o medo. Estes não podem esquecer que Jesus Cristo é maior que a Bíblia, ele é a encarnação daquilo que Deus nos deixou como suficiente para arrependimento dos pecados, discipulado e salvação. Esse que em nome do amor contradisse coisas que ele mesmo havia dito. Como por exemplo, disse aos discípulos para irem somente às ovelhas da casa de Israel e atendeu a mulher que falou que os cachorrinhos comem o que cai da mesa. Outro exemplo é quando ele atende o homem que tinha um filho atormentado e diz a ele a máxima da fé: “tudo é possível ao que crê”, e ouve do homem “ajuda-me na minha incredulidade”, e mesmo assim cura o filho daquele homem.

Por outro lado existem aqueles que duvidam de tudo o que as Escrituras relatam. Chegando ao cúmulo de duvidar sobre a capacidade de Deus intervir na história humana. Estes são os que negociam as Escrituras. Com o objetivo de não causar “mal estar” aos ouvintes omitem o que as Escrituras dizem sobre pecado, justiça e juízo. Omitem que as mãos que seguram a graça recebida são as mãos do arrependimento. Estes precisam entender que a Bíblia não se propõe a ser um livro de história e geografia exatas. Se propõe sim a revelar o plano de Deus para trazer o homem para perto de si novamente. Por isso trata-se de um livro que lida com a fé. E sendo assim não importa se não fica claro em Gênesis, quem casou com quem, como era contagem do tempo. O que importa é que ali está descrito de forma clara que a humanidade se afastou de Deus pelo pecado e de forma profética que viria aquele que pisaria a cabeça da serpente e colocaria a disposição dessa humanidade a salvação, a libertação, a vida. Dentro das coisas que dizem respeito ao fim, não importa quantas gerações para isso ao aquilo, não importa se tem besta ou não e que besta é esta, não importa quem vem e quem vai e como vem e como vai, o que importa é a promessa de que ao fim de tudo a igreja, a noiva do cordeiro estará com ele para descanso eterno.

Uma igreja relevante não despreza, mas não se importa tanto com as extremidades da Bíblia, com o passado e o futuro, mas principalmente como seu meio, com os evangelhos, com o que Cristo falou, fez, e disse para falarmos e fazermos AGORA.

3.   É HUMANA

Um ponto de grande importância na perda de relevância da igreja em relação ao seu tempo está na “desumanização” dos seus membros. Os conceitos de santidade difundidos são assustadores e devastadores. Quem pode subir no santo púlpito? Quem é “consagrado” o suficiente para orar por…?

A grande questão é que não fomos salvos para nos tornarmos pequenos deuses, mas o propósito da salvação é nos tornar humanos melhores, pois Deus nos criou humanos para sermos humanos. Ele gosta de nós assim. Se ele nos quisesse deuses ele nos teria criado deuses.

Estes conceitos errados, deturpados estimulam a hipocrisia, pois as pessoas não conseguem ser e passam a fingir que são. E normalmente são estas se tornam juízes dos outros que não fazem questão de camuflar sua humanidade. Estes conceitos errados alimentam ainda a ideia de “pecadinho” e “pecadão”, classificando os pecadores de plantão como melhores e piores.

Jesus disse que a questão é interior, tem a ver com o coração e por isso se o que sai do coração é uma “invejinha” ou uma “mentirinha”, estarão no mesmo patamar que o assassinato, o adultério, o desequilíbrio em relação a comida, a maledicência, o uso da igreja ou da religiosidade para fugir das demandas familiares.

Precisamos aceitar nossa humanidade, pois Jesus Cristo a aceita, tanto que se tornou um de nós. Aceitar a humanidade não significa ser conivente com erros ou acomodar-se a ponto de não lutar para melhorar, mas retirar as máscaras de “pretensos semideuses”. É tentar acertar, e quando acertar vibrar, mas quando errar admitir e reconhecer que estes somos nós e é exatamente por isso que Deus trata conosco por meio da graça e misericórdia. Graça e misericórdia que devem determinar nossa forma de relacionar com o próximo.

Uma igreja mais humana é uma igreja cheia de graça e misericórdia e consequentemente relevante. Uma igreja que acolhe o fraco porque sabe que também é fraca e se está de pé sabe que é por pura graça e misericórdia da cabeça da igreja.

 

 4.   REALIZA SUA A MISSÃO DE FORMA INTEGRAL

A consciência de humanidade com certeza levará a igreja ao cumprimento da sua missão de forma integral.

O conceito por trás da missão da igreja reafirmado no chamado pacto de Lausanne é: “O evangelho todo, para o homem todo, para todos os homens”.

Normalmente limitamos o conceito de missão integral a evangelização+responsabilidade social, mas a frase de Lausanne nos leva para além disso. Por exemplo, achamos que por termos uma creche, estamos realizando missão integral. O conceito é mais profundo e requer mais envolvimento do que ceder nosso prédio.

Ed Renne Kivitz em um de seus textos escreve que Missão integral fala do evangelho sendo aplicado a todas as dimensões do humano, a todas as dimensões da vida, evangelho aplicado a todas as dimensões das relações humanas, a todas as dimensões da vida em sociedade, o evangelho como realidade que afeta todas as dimensões do universo criado. Na missão integral que leva este evangelho integral o foco é a restauração do ser humano como um todo.

A igreja cumpre de forma integral sua missão quando o evangelho vivido e pregado atua em todas as áreas da vida humana buscando a transformação do todo: restauração da dignidade, relacionamentos, caráter, vida social, vida de fé, vida profissional, lazer, enfim tudo.

CONCLUSÃO:

É necessário perseguir esta relevância, pois sal que não salga não serve para nada. Igreja irrelevante não serve para nada.

As mudanças desejadas para o todo começam no indivíduo. A soma de indivíduos “mudados” pode resultar em uma sociedade “mudada” pra melhor.

Quero terminar com uma frase do Paulo Cesar Baruk em uma de suas canções: “Ano novo vida nova, mas se a gente não for diferente, tudo vai ser igual”.

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~ por celsommachado em 09/01/2013.

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