…a amnésia da igreja…

Estava lendo no Blog do Pavarini, aliás grande acesso a leituras que valem a pena, um texto fantástico do Paulo Brabo com o tema: “A pastoral do medo”. Neste texto ele faz alusão a algumas características da igreja neo-testamentária que me chamaram a atenção para o quanto a igreja vive hoje em profunda crise de amnésia. Não vou discorrer sobre o mesmo tema que ele, mas quero usar os três pontos que ele coloca sobre a igreja do início. Pontos dos quais a igreja atual tem se distanciado: os apelos de João Batista por justiça social; as mesas comunitárias no livro de Atos; e os confrontos de Jesus com as elites do seu tempo.

Em época de campanha política, podemos observar o quanto é grave o estado amnésico da igreja brasileira. A Igreja não consegue discutir temas que possam produzir mudanças sociais importantes, tais como: justa distribuição de renda; questões de saneamento básico; saúde pública, educação e outros. A visão míope da Igreja não a permite enxergar além de seus preceitos moralistas. E com isso, a discussão fica religiosamente rasa revelando de forma muito evidente o quão distante estamos da proposta inicial do ser igreja. Revela ainda um segundo ponto: O “evangelho” que temos anunciado a este mundo “pós-tudo”, não responde aos questionamentos existenciais que tem aprisionado pessoas a uma busca desesperada por algo que não sabem bem o que. Levando-as a experimentar tudo que lhes é proposto sem a utilização de qualquer critério e muitas vezes negociando princípios e valores essenciais. Essas experiências marcam profundamente suas vidas, que depois de marcadas e fragilizadas se tornam alvos de julgamentos severos feitos pela Igreja. A Igreja precisa se lembrar de João Batista e do seu clamor e luta por justiça e reaprender a proposta do Reino de Deus. Entender que a discussão sobre o aborto e homossexualismo não deve acontecer apenas em um contexto moral-religioso regado a defesas superficiais construídas em cima dos mesmos textos bíblicos sem observar com o devido cuidado que alguns não dizem o que querem que se diga, ou pelo menos são mais profundos com alcance mais amplo naquilo que se propõem a dizer.

Ele cita também as mesas comunitárias da Igreja de Atos. Existe uma ganância idólatra que move o mundo. A busca incessante por satisfazer desejos visando um prazer egoisticamente pessoal. Não se permite sofrer, não se entende mais o sofrimento como algo que faz parte da saga humana em seu processo de maturação e que tem como inspiração o próprio divino. A busca por este estado de existência isento de sofrimento, desperta o que o ser humano tem de pior: o egoísmo. E com isso a idéia de se importar com o próximo é completamente descartada. Partilhar, dividir, servir, doar, são verbos que indicam ações fora de moda que vão deixando de ser conjugados. A Igreja-Mercado que vemos e vivemos tem pregado a mensagem: “Pare de sofrer”, “Lute e conquiste sua benção” incentivando os fiéis a buscarem satisfação das suas vontades, o suprir das suas necessidades pessoais que normalmente tem a ver com o acúmulo de bens, em forma de dinheiro, posses e prestígio. A Igreja precisa lembrar resgatar a idéia de comunidade do início, onde por amor e por princípio havia um compartilhar, repartir, um preocupar-se não somente consigo, mas também se o outro está suprido. A vida cristã, os discipulado, o seguir a Jesus, implica em viver para o outro. Se assim não fosse não teríamos o registro das palavras de Jesus citadas por Lucas em seu evangelho (Lc.9:23): “Se alguém quiser me seguir, negue-se a si mesmo, tome diariamente a sua cruz e então me siga”. Ao contrário da conquista egoísta a proposta, discipulado, é serviço a Deus e ao próximo, é partilhar vida para que todos tenham pelo menos um pouco é proposta para um viver comum.

E por último ele fala do confronto de Jesus com as elites do seu tempo. É possível enxergar dois grandes grupos que compunham as elites dominantes no tempo de Jesus. Por um lado encontramos a elite que representava o governo na pessoa de Herodes, seu Palácio, corte, e afins. Por outro lado encontramos a elite religiosa formada pelo pessoal do templo, sacerdotes e levitas. Ambas corruptas e corruptoras, ambas opressoras. Voltando ao momento político em que estamos, vemos como os “evangélicos” são “vendáveis” e “compráveis”. Vemos pessoas decidirem o seu voto por ouvir determinado candidato fazendo uso do seu conhecido linguajar: “o evangeliquês”. Podemos perceber Malas mudando de opinião com tamanha facilidade porque suas opiniões são “frágeis” e acabam cedendo diante da resposta à pergunta: “O que eu ganho com isso?” De certa forma há um desejo por fazer parte de alguma das elites vigentes e através dessa participação saciar sua fome de prestígio, poder e principalmente de dinheiro, muito dinheiro. O mundo oprimido hoje precisa de uma igreja mais cristã, uma igreja que realmente tenha a cara do Cristo. Do Cristo que confronta as elites opressoras e acolhe as vítimas da sua opressão incluindo-as. Infelizmente a igreja está mais elitizada do que deveria e do que poderia, ela tem se tornado mais elite que igreja.

O que é necessário para mudar isso? Eu creio que tudo começa com a proposta de Apocalipse 2:5: “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se e pratique as obras que praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do lugar dele”. Mas considerando a atual capacidade de reação da igreja e levando em conta o texto de Lucas mais uma vez (19:40): “se eles se calarem, as pedras clamarão”, quem sabe a igreja precise ser evangelizada pelo mundo através de um clamor que expresse sua necessidade: “Sejam cristãos!” “Imitem a Cristo” “Ajam como Cristo” “Nós precisamos de Cristo!”

Celso

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~ por celsommachado em 21/10/2010.

Uma resposta to “…a amnésia da igreja…”

  1. Oi Celsão.. ta aí, gostei.
    saudades

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