organismo x organização

Quando Jesus em sua vida terrena começou a dizer as pessoas “sigam-me”, homens e mulheres sedentos por vida começaram a segui-lo. Com isso surge o que poderíamos chamar de comunidade da vida composta por aqueles que se tornavam seus discípulos. Comunidade essa que não tinha endereço, raça, hierarquias, estatutos e afins, possuía o que realmente importava, relacionamentos fundamentados no amor a Deus e ao próximo. Jesus não começou uma organização debruçando-se na elaboração de um estatuto onde suas ações e movimentos seriam previstos detalhadamente, com o propósito de que a “identidade” da nova instituição não se perdesse. Não há relatos bíblicos ou históricos que nos permitam enxergar uma ação burocrática por parte de Jesus que trouxesse a existência uma organização bem ajustada em suas normas e regras de funcionamento.

O surgimento da Igreja é informal mais do que qualquer coisa. Cada indivíduo alcançado pelas boas notícias do amor e da graça de Deus ingressava no corpo místico de Cristo uma comunidade que surgia informalmente. A nova comunidade nascia centrada em relacionamentos orientados por princípios e não por leis. Refletindo nesta direção hoje podemos perceber duas igrejas, a que surge como um organismo vivo que deve ser orientada por princípios, que de certa forma se torna refém de outra igreja quem tem como uma de suas características principais a burocracia legalista que elimina o relacionamento e conseqüentemente a vida que lhe deveria ser inerente.

A Igreja como organismo

O modelo de Jesus, respeitando tanto valores culturais como temporais, revela-nos a idéia da Igreja como organismo. Eu creio que o grande sinal da proposta de Jesus para sua igreja começa com sua vitória sobre a morte. A morte foi necessária, pois sem derramamento de sangue não há remissão de pecados, mas a obra sacrificial de Cristo é coroada com a vida manifesta na ressurreição. O Cristo vivo, ressurreto é colocado como a cabeça deste grande organismo idealizado pelo próprio Deus antes da fundação do mundo. Em sua vida terrena Jesus manifestou através de suas ações a vida inerente ao organismo que começava a se formar, seja na cura de pessoas enfermas, seja na cura da alma de pessoas emocionalmente mortas, na vida de qualidade proposta em João 10:10.

Jesus se relacionava com as pessoas, ele as tocava, comia com elas, andava com elas. Ele lhes ensinava princípios a partir de lições que surgiam naturalmente no dia à dia com tamanha sabedoria que a lição aprendida ficava gravada tanto no coração daqueles que já eram parte do organismo como daqueles que viriam a fazer parte. E é interessante que a vida plantada por Jesus no coração daquelas pessoas se multiplicava alcançando outros e com isso o organismo, que é vivo, cresce com saúde. A estratégia de crescimento era a vida e o amor que circulavam nas veias deste organismo através dos relacionamentos. Relacionamentos estes tanto com os que já eram membros, fortificando e nutrindo, como também com os que ainda não faziam parte, atraindo, cuidando e consolidando.  Dentro de um organismo o que não coopera para uma boa saúde, para a sobrevivência, para preservação do mesmo, é corpo estranho.

No organismo gerado por Jesus não se age com autoritarismo, mas se exerce a autoridade. Não há espaço para competições e disputas de poder, pois cada membro tem consciência de sua função e a exerce com responsabilidade e amor. Todos os membros agem buscando o cumprimento do mesmo objetivo a maturidade que é saúde para o organismo que resultará em crescimento seguro e saudável.

O apostolo Paulo mesmo lançando mão em dado momento da figura inanimada do edifício para ilustrar essa nova comunidade, usa a metáfora do corpo como a principal forma de retratar o “modus vivendi” da Igreja. Quando lemos os capítulos 12, 13 e 14 da primeira epístola aos Coríntios e lemos Efésios no capítulo 4, podemos perceber um organismo em movimento cumprindo sua missão fora e dentro.

A igreja como organização

Quando o lugar da Igreja deixou de ser “qualquer lugar” e se tornou catedrais e templos suntuosos, dirigidos por um “clero santo e elitizado”, começou a perder suas características de organismo e começou a se transformar em uma organização fria sem vida. Organização essa, que, como toda e qualquer organização humana, permite o acúmulo de valores anti-reino em suas dobras. Permite o surgimento e a sobrevivência de parasitas em suas reentrâncias tornando-se uma instituição desumana e sem coração que muitas vezes mata ao invés de doar vida, exclui ao invés de incluir e fala de Deus sem que este possa ser encontrado em seu estilo de vida ou em suas práticas. Não faz parte da vocação da Igreja subsistir como uma organização.

A organização chamada de igreja por subsistir fora da sua dimensão vocacional original tende a assemelhar-se a instituições ou associações que possuem objetivos fúteis, vazios e limitados e que não os de Cristo para a sua Igreja. Uma simples associação tem na sua composição os sócios, dentre estes os majoritários tendem a ter mais voz e assim procuram fazer valer sua forma de pensar em detrimento do que os outros pensam. Da mesma forma sobrenomes e tempo de casa funcionam como grandes argumentos para conferir maior destaque e privilégios a um grupo seleto de pessoas. A organização cria certo status em torno de alguns cargos que passam a ser disputados por aqueles que têm sede poder. Na organização ou meras associações os relacionamentos são superficiais, pois cada um que se destaca se constitui em ameaça para o outro. Os objetivos da instituição são mais importantes que as pessoas e estas por sua vez se tornam descartáveis. Quem lê os evangelhos e medita na ação e vida de Cristo entende que Igreja organização não é Igreja de Cristo. É claro que onde houver um grupo de pessoas haverá necessidade de que princípios e valores sejam estabelecidos de forma clara para que o organismo funcione bem. Com isso quero dizer que não estou fazendo apologia da bagunça, da desordem, mas procurando deixar claro que a vocação da igreja tem a ver com subsistir como organismo e não com organização.

A Igreja televisiva, em franco, nocivo e, muitas vezes, ilícito crescimento é um exemplo cristalino desta verdade. Podemos perceber que há uma luta entre diferentes comunidades televisivas para mostrar quem tem maior audiência, para mostrar quem adquire mais reprodutoras regionais, para provar quem é o melhor diante das câmeras e tudo isso sutilmente regado a versículos bíblicos, sermões triunfalistas, unções das mais variadas. Enquanto isso os “homens de Deus”, os grandes “ungidões” nem mesmo piscam, pois precisam estar atentos aos números do ibope, pois este é seu principal objetivo. Fato esse confessado recentemente por um dos tele-bispos da atualidade quando disse que seu foco quando evangeliza não é abençoar as pessoas, mas enriquecer a igreja. Enquanto isso estes mesmos figurões da fé ficam cada vez mais ricos à custa de ofertas bondosamente doadas por pessoas sinceras e simples que acreditam estar investindo no Reino de Deus, mas também através de interesseiros gospel que querem achar na fé uma forma enriquecimento rápido.

Este mal atinge as instituições religiosas independente do rótulo que carregam seja por vontade própria ou por ter sido assim denominada a partir do estudo profundo de algum “eclesiólogo” que as classifica como: históricas, pentecostais, neo-pentecostais, comunidades livres, etc, legitimando cada vez mais  a competição fortalecendo cada vez mais a idéia anti-reino de fragmentação da Igreja de Cristo. Todas as organizações denominacionais, independente de sua história, tempo de existência, estão a mercê do mesmo mal, pois enquanto organizações religiosas, propiciam o ambiente ideal para a proliferação dos males mencionados anteriormente e tantos outros. Digo isso sem desrespeitar a memória de homens e mulheres valorosos que mesmo reféns de uma estrutura que abriu feridas em suas vidas e famílias, deixaram de pregar e viver o evangelho do Reino. Não estou aqui propondo mais um infrutífero movimento anti-denominacional, aliás, minha proposta é de reflexão e não criação de um movimento, ou de mais uma estrutura. O que precisa ficar muito claro é o conflito que existe entre a proposta do Senhor para a vida sua Igreja que basicamente deve ser encarada como um organismo vivo e a práxis que pode ser observada na organização que hoje chamamos de igreja.

Os pontos de conflito

Eu creio que existem pontos de conflitos muito claros entre a organização e o organismo. Queremos propor a seguir um comparattivo que de certa forma resume este pontos de conflito:

ORGANISMO: Vida; Princípios e valores; Valoriza as pessoas; Cada membro exerce a sua função; Autoridade; Relacionamento; Servir; Crescimento natural saudável; Todos os carismas; Maturidade é mais importante; Fé = Relacionamento com Deus; Perdão; Amor

ORGANIZAÇÃO: Inanimado; Normas, leis e dogmas; Valoriza a instituição;  Competição e disputa;  Autoritarismo; Superficialidade; Ser servido; Crescimento por simples adesão; Um carisma; Números são mais importantes; Fé = um negócio; Exclusão; Frieza

Como podemos perceber as diferenças são realmente essenciais o que não permite a  comunidade dos discípulos de Jesus se aninhar nos dois braços, o da Organização e do Organismo. Com certeza a vocação da Igreja tem a ver com ser um organismo vivo onde o a cabeça distribui carismas capacitando treinadores que não são em nada melhores que os treinandos, mas exercem uma função como todo membro, que visa a maturidade do corpo. Para que este corpo saudável então produza seu próprio aumento como lemos em Efésios 4. Há o objetivo de crescimento, mas este objetivo visa um aumento resultante de relacionamentos de amor que pretendem livrar os objetos deste amor de uma eternidade longe de Deus.

Não tenho uma solução, mas tenho um sonho. E tenho procurado sinceramente, através da simplicidade do evangelho e do Senhor do evangelho, mudar a mim mesmo. Mudança de mente já seria um bom começo. Imitar Jesus nas suas intenções e ações também seria um grande passo. Trilhar esse caminho não é impossível. Gandhi tem uma frase célebre que nos ajuda nesse quesito: “Seja em você mesmo a mudança que quer para o mundo”. Aqueles que entendem que a igreja vista e vivida hoje está distante da proposta inicial do seu idealizador e mentor, precisam ter a coragem de viver no meio dela a transformação que querem para ela.

Anúncios

~ por celsommachado em 15/05/2010.

Uma resposta to “organismo x organização”

  1. EU TB TENHO ESSE SONHO!!!q saudades de vcs!! de pessoas q pensam como a gente!!! acho q pessoas como a gente deviam estar mais próximas!!! nesse texto vc disse td! e nessa foto vc é aquele Celso de anos atrás!!! saudades semore!!! e aprendendo sempre!!!
    bjo na família Suzuki Machado!!!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: